12 de jul de 2009


DANUZA LEÃO

O maior dos privilégios



NÃO DÁ PARA negar: existe no mundo uma classe de privilegiados. Aliás, uma não, duas: os que nascem privilegiados e os que se tornam privilegiados.
Os primeiros são os que nasceram bonitos, inteligentes, talentosos. Há como negar que Sophia Loren é uma privilegiada? Que Chico Buarque também, e dr. Albert Sabin, Pelé e outros, cada um na sua especialidade? Esses deveriam todo dia rezar e agradecer por terem nascido com esse dom que os torna especiais e merecedores da admiração do mundo em geral.
Privilegiados também são os que nasceram em famílias unidas, com uma situação financeira confortável, saúde, que puderam estudar e ter acesso às boas coisas da vida, o que é sempre bom; são também privilegiados, nos dias de hoje, as celebridades, o que pode querer dizer qualquer coisa. Mas qual a vantagem de ser um privilegiado? É que esses costumam ter abertas as portas para quase qualquer coisa, o que não é bom, mas ótimo. Alguns se esforçam para chegar lá. Esse lá pode ser qualquer coisa, mas o objetivo principal é um só: pertencer à privilegiada casta dos privilegiados.
Para eles não existem filas, os médicos, mesmo não tendo hora, ficam até mais tarde no consultório para atendê-los, os restaurantes sempre têm mesa, e os aviões costumam deixar alguns lugares vagos, se um deles resolver viajar naquele dia, naquela hora -um privilégio, não?
Esses não precisam nem dizer "sabe com quem está falando?" porque todos sabem, e se não souberem, seus assessores se encarregam de dizer; como eles não se ocupam dessas ninharias, têm sempre alguém que faça tudo por eles.
Essa é a razão da luta pelo poder político. Dificilmente você vai ver um deputado -se for senador, melhor ainda- na fila de embarque de um avião, por exemplo, ou em qualquer situação que os iguale ao comum dos mortais. Nem na fila para comprar entrada para o cinema, nem na porta de um restaurante no Dia das Mães, nem com o filho no colo num posto de saúde no dia da vacinação. Como eles fazem? Não sei, mas na vida deles tudo é fácil, e quanto mais poder eles têm, mais fácil é. Você já reparou que quem provou o gostinho nunca mais abre mão do famoso poder?
Pensando bem, a rotina na Câmara dos Deputados ou no Senado deve ser um tédio, por isso o plenário das duas Casas está sempre vazio, mesmo funcionando só de terça a quinta. Mas quem é deputado ou senador quer sempre ser reeleito, mais tarde ser presidente da Casa, depois governador, depois presidente da República. Não sei quem disse isso, mas nunca esqueci: que uma das coisas a que se acostumam, quando exercem o poder, é a nunca abrir uma porta. Existe sempre um assessor nomeado exclusivamente para fazer isso. Mas será tão penoso assim abrir uma porta?
Ter um jatinho à disposição, como tem Lula, também é bom, mas se só serve para levar o poderoso para reuniões em lugares que ele não escolheu, de que adianta?
Se as pessoas pensassem mais, batalhariam não para ter o poder banal, mas sim aquele que, no plano pessoal ou profissional, é o mais importante dos poderes: poder dizer não seja lá a quem for, na hora que tiver vontade.
Poder dizer não; esse é o maior privilégio que se pode ter na vida.

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