23 de mai de 2010


Serra no seu lugar

JANIO DE FREITAS – FOLHA SP

A confirmação da pequena mobilidade do tucano nas pesquisas sugere limitação em sua candidatura

SÃO DOIS PRA lá, dois pra cá -é a dança de José Serra se movendo, a cada pesquisa, sem sair da mesma zona de pontos. Nessa constância, mais do que na subida de Dilma Rousseff para o empate com o competidor, deve estar a principal sinalização do Datafolha em que os dois se enlaçam nos 37%.

Dilma responde, como esperável, à intensificação de sua atividade eleitoral, desordenada o bastante para sugerir alguma precariedade de planejamento, mas com o horizonte aberto pelo demorado trabalho de apresentação pessoal feito por Lula, em grande parte do país.
No período entre o Datafolha anterior e o atual, Serra não intensificou sua atividade eleitoral pública menos do que Dilma, ou com diferença notável. Não contou com inserções partidárias de TV, já desfrutadas por Dilma, mas não há como atribuir só a essa ausência o efeito minúsculo da atividade restante.

A confirmação da pequena mobilidade de Serra nas pesquisas sugere que, naquela zona de pontos, a sua candidatura encontra uma limitação. Não é um teto. Seria a limitação da capacidade de sua candidatura de captar votos por si mesma. Ou só pela possibilidade individual do próprio Serra de fazê-lo. Limitação temporária, que a entrada da propaganda tem a finalidade de neutralizar. Sinaliza, porém, a carência que a candidatura de Serra começa a ter de alianças regionais que, por diferentes motivos, se mostram difíceis. Algum êxito objetivo, nesse sentido, já se teria refletido no Datafolha.

O PSDB é um partido de indivíduos, a forma partidária do cada um por si. O símbolo adotado não é apenas difamatório dos tucanos, é também um erro ornitológico: os tucanos tendem à vida gregária e afetiva. O primeiro problema da necessidade de Serra está, pois, em ativar o individualismo peessedebista, nos Estados todos, para a prioridade de negociações a serviço de sua candidatura. Até agora, é quase inexistente esse trabalho do PSDB e do aliado DEM por seu candidato.

A outra dificuldade está nas peculiaridades políticas pouco favoráveis em muitos Estados, a começar das várias indefinições e hipóteses no poder eleitoral que é Minas.

Não bastando, em tantos Estados, a presença voraz do empreendimento PT & PMDB Associados, há situações até humorísticas, como a do Estado do Rio. À falta de um nome seu para disputar o governo estadual com pouco vexame, o PSDB adotou a candidatura de Fernando Gabeira, do PV. Mas o PV tem candidata à Presidência, Marina Silva, e portanto o candidato estadual do PSDB não poderá fazer campanha para José Serra. Frequentaria, dizem, os dois palanques. Mas estar em palanques não basta e estar em dois é estar em nenhum.

José Serra conta com um cofre muito poderoso para a campanha, por sua óbvia condição de preferido na concentração mais rica do empresariado brasileiro. Ao que demonstram as pesquisas, sua campanha precisará muito desse cofre, para tentar suprir, pela avalanche, os vazios políticos da candidatura.

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