27 de ago de 2010

blog de adriana carranca

Estive com a escritora iraniana Azar Nafisi em um debate sobre o Irã, na Bienal do Livro. Leiam abaixo a íntegra da entrevista que aproveitei para fazer com ela, publicada em parte no último domingo, no Estadão.
ENTREVISTA: AZAR NAFISI
A violência institucional no Irã aumenta na mesma medida em que o regime instaurado desde a Revolução Islâmica, de 1979, se sente acuado. O caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, é apenas o mais recente capítulo dessa história que dura há 30 anos, na visão da escritora iraniana Azar Nafisi. “O uso da violência aumentou, porque o regime enfrenta cisões internas. Está se desfazendo em pedaços”, acredita a ex-professora da Universidade de Teerã, exilada em Washington, nos Estados Unidos.
Nafisi cita como exemplo Mir-Hossein Mousavi, o líder do movimento verde e opositor do presidente Mahmoud Ahmadinejad nas eleições de junho de 2009. “Ele não é exatamente um liberal. Era o primeiro-ministro quando me proibiram de lecionar. Me chamava de ‘agente dos EUA’, porque eu ensinava literatura americana. Agora, o regime o acusa do mesmo”, diz. “Mas, é bom que isso esteja acontecendo. Embora não goste de falar em política, Nafisi não é do tipo que se cala diante de injustiças do regime, no qual ela um dia acreditou até ver cerceada a própria liberdade. Em São Paulo, para a Bienal Internacional do Livro, a autora de Lendo Lolita em Teerã e O Que Eu Não Contei, ambos pela editora Record, recebeu o Estado para a seguinte entrevista.
Sendo mulher e muçulmana, como a sra. vê a pena de lapidação aplicada no Irã?
Em primeiro lugar eu não gostaria de falar como muçulmana. Não é preciso ser muçulmana ou cristã para condenar um ato como esse. Essa é uma questão humanitária. Não digo humana porque, infelizmente, são humanos os que cometem atrocidades assim.
A sra. aprova a intervenção do Brasil?
Acho Que Lula falou de Sakineh para ter apoio dos brasileiros… Não pedimos que ele, ou nenhum outro, use a força contra o Irã. Não queremos uma guerra. Mas, o presidente de um país democrático, que escolheu abolir a pena de morte há mais de cem anos, como o Brasil, não pode se dizer amigo de um presidente que apedreja seus próprios cidadãos até a morte. Não falo apenas do Irã, mas do regime norte-coreano, ou de (Robert) Mugabe (presidente do Zimbábue). O critério para conferir a outro país o status de amigo deveria ser a forma como este trata sua gente.
A Revolução Islâmica teve apoio popular. O que deu errado?
O Brasil é uma democracia vibrante. E esse era o espírito dos iranianos no início da Revolução Islâmica. Estávamos esperançosos. Porém, dia a dia, as pessoas foram se frustrando e nos tornamos uma nação triste. Mas, temos de assumir a nossa parcela de responsabilidade. É mais fácil culpar Ahmadinejad e o regime, mas nós fomos cegos! Só nos importávamos em depor o xá (Reza Pahlevi) e retomar a liberdade. Ninguém se perguntou o que seria do Irã depois. Acreditávamos que aos nos livrarmos de um regime tirano, a democracia estava garantida – essa era a promessa deles. E nós subestimamos os aiatolás. Montazeri (aiatolá Hossein-Ali Montazeri, apontado como sucessor de Khomeini até desentender-se com o líder em 1989, por causa de violações de direitos humanos praticadas pelo regime, principalmente nas prisões) logo se deu conta disso: “Vocês estão destruindo o Islã, ao se tornarem governo”, ele dizia.
O que tem de mudar no Irã, as leis, a religião ou o regime?“Você conhece um país por suas leis”, me disse uma vez Shirin Ebadi (Nobel da Paz iraniana). Nossas leis não representam o povo iraniano e têm de mudar.
As coisas seriam diferentes se Mousavi tivesse vencido as eleições?
É difícil prever. Ele não é exatamente um liberal. Mousavi era o primeiro-ministro do Irã, quando fui proibida de lecionar na universidade. Me chamava de ‘agente dos EUA’ e agora o acusam do mesmo. Mas, é bom que isso esteja acontecendo, porque aponta uma cisão interna. Há muitas linhas políticas diferentes hoje no Irã. Eles estão desesperados”.
Como o Brasil pode ajudar?
Peço que conheçam o Irã pelos livros, poesia e música. Porque isso também é o Irã. Não acreditem que a visão de Ahmadinejad e do Líder Supremo é única, pois não reflete a verdade sobre os iranianos. Antes desse regime, o Irã teve ministras no governo. Não se deixem enganar pelos políticos atuais.
A forma como o Islã é retratado a incomoda?
Não se pode generalizar. Admiro a sua imprensa e os brasileiros, pois se mostram solidários a Sakineh e os jornais falam sobre o caso todo tempo. É incrível ver um país tão distante preocupado com os iranianos. O que me preocupa é a mídia generalizar e simplificar algo tão complexo e buscar somente o sensacionalismo. Milhões de muçulmanos comuns, que trabalham duro e tocam suas vidas, não têm voz. Ahmadinejad, não importa o que diga, ganha a mídia mundial. Ainda que diga mentiras, como negar o Holocausto ou a presença de gays no Irã. Como presidente, ele deve ser ouvido, mas não detém a verdade. Há muçulmanos violentos e bons, como cristãos. Há o Islã de Ahmadinejad e o Islã de Sakineh. Ela tem um nome muçulmano, vem de uma família tradicional e religiosa, veste o chador…
Por que tanta polêmica em torno do véu? 
É uma boa pergunta. A minha avó nunca tirou o véu e odiava violência. Para ela, o hijab era uma demonstração de fé. Veja, a questão não é usar ou não. O que queremos é ter o direito de escolher. Ainda que seja para escolher usar o véu, como muitas farão. Queremos o direito e votar, trabalhar – o que a Bíblia é contra, aliás. Essas não são questões de muçulmanos ou cristãos, mas da humanidade.

Porque a sra. decidiu escrever?

Nos regimes fechados, escritores e poetas são símbolos de uma vida, que fica escondida pela opressão. Os livros, portanto, trazem um retrato mais fiel da sociedade. Simin Behbahani, poetisa iraniana de 83 anos, teve a coragem de receber um prêmio em nome no movimento verde. Confiscaram seu passaporte e cercaram sua casa para evitar que viajasse e falasse ao mundo. O que ela fez? Falou na cerimônia via teleconferência, de sua casa, pela Internet. Aos 83 anos! Uma mulher corajosa, que mostra uma face do Irã tão ou mais verdadeira do que a que Ahmadinejad quer pintar. Comemoramos 1000 anos desde que o poeta Ferdowsi concluiu o épico Shâhnâmeh (Livro dos Reis) e você sabe como ele retratava as mulheres? Liberais, que faziam amor sem se preocupar com casamento. Se ele foi capaz de imaginá-las assim há mil anos, você pode ter uma ideia da sociedade da época… Os livros não só refletem a realidade, mas mudam a realidade. Porque levam a questionar o mundo, o outro e a si mesmo. São subversivos por natureza. Conectam as pessoas, no que chamo de República da Imaginação (título do novo livro de Nafisi, com lançamento previsto para 2011), em que seu passaporte é a paixão pelo conhecimento.

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