31 de mai de 2010

l. f. veríssimo


A Curva dos Olhos-D’Água



 Já contei como foi meu primeiro encontro com o Latim na escola. Não houve encontro. Quando descobri que o Latim fazia parte do currículo no novo ano letivo, decidi que aquilo não era para mim e fugi. Troquei as aulas de Latim por passeios perto da escola. Até hoje não sei como nunca fui pego gazeando as aulas. Ainda se diz "gazear"? A escola ficava no alto de um morro e no pé do morro ficava o Jockey Club de Porto Alegre, o Prado. Na hora do Latim eu descia o morro e ia ver os cavalos treinarem. Fui um frequentador tão assíduo destes exercícios matinais que um dia me vi até segurando um balde para um treinador que escovava seu cavalo. Depois subia o morro e voltava à escola. No exame oral de fim de $o professor de Latim apertou minha mão e disse "muito prazer", pois só me conhecia de nome. Tive que repetir o ano, claro.

Infelizmente, minha frequência nos bastidores do hipódromo não me transformou num expert em cavalos e corridas. Só o que aconteceu foi que passei a acompanhar o noticiário do Jockey, que naquele tempo ocupava bastante mais espaço nos jornais e nas rádios do que hoje, pelo menos em Porto Alegre. E gostava de ler a descrição das corridas nos jornais ou ouvi-las sendo narradas no rádio. A primeira curva da pista do Prado depois da reta de chegada era chamada de Curva dos Olhos-D’Água. Eu achava bonito aquilo: Curva dos Olhos-D’Água. Nunca descobri se haviam $vertentes atrás da curva, para justificar o nome. Preferia pensar que a razão do nome era puramente poética. Como a que inspiraria, anos depois, o Chico Buarque a compor a sua "Morena dos olhos d’água", a única outra referência literária à expressão que eu conheço. Quando o Jockey Club mudou de lugar, fizeram um parque no local e, que eu saiba, não encontraram olhos-d’água no terreno. Talvez fosse mesmo apenas literatura.

Cheguei a pensar que, se um dia escrevesse um livro sobre aquele garoto que fugia do Latim e ia ver os cavalos, o título seria "A Curva dos Olhos-D’Água". Significando nada, apenas para não desperdiçar o nome. Como o livro não sairá, vai uma crônica mesmo.

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