21 de abr. de 2010


Os anjos que conheço - António Ramos Rosa


Os anjos que conheço são de erva e de silêncio 
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes? 
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas, 
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros 
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz 
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca, 
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte, 
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal, 
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue 
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?

António Víctor Ramos Rosa (Faro, Portugal, 17 de outubro de 1924) - Além de poeta é ensaista. Estreou na poesia em 1958 participando da coletânea O Grito Claro, e desde então, não parou mais. Considerado um dos grandes escritores portugueses, recebeu diversos prêmios nacionais e estrangeiros ao longo de sua vida.

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