9 de abr. de 2010


O pato acorrentado




Le Canard Enchaîné (ou O Pato Acorrentado), um jornal semanal de oito páginas em preto e branco, é o grande responsável por todo o estrago que se assiste hoje na cúpula do poder francês.
Ontem, Carla Bruni-Sarkozy e Rachida Dati, as duas mulheres na mira dos rumores que estão sacudindo a quinta república, se apressaram a falar com a imprensa - o que vinham evitando há dias - para responder, mais uma vez, ao semanário ao mesmo tempo mais sério e mais cômico da França.
A edição de ontem do jornal do pato trazia uma matéria decretando que a fofoca havia oficialmente virado um assunto de Estado na França. E que fazia troça do comentário feito pelo secretário particular de Sarkozy, de que o boato sobre a crise conjugal no Palácio do Elysée faria parte de um complô contra o presidente, organizado a partir de interesses financeiros escusos.
A reação da mulher do presidente - dizendo que não é vítima de complô algum etc - ganhou as manchetes dos sites dos jornais franceses durante todo o dia de ontem. Rachida Dati, que vários jornais franceses apontam como a fonte das fofocas da crise conjugal, se defendeu em tom duro, dizendo que tais boatos são inadmissíveis e escandalosos; tanto os que vão contra o casal presidencial quanto os que vão contra ela.
Apesar da fofoca sobre uma crise conjugal no Élysée ter atingido seu ápice na imprensa marrom há várias semanas, o tema voltou com força na semana passada depois que o Canard noticiou, com a ironia que lhe é peculiar, a abrupta retirada de circulação da limusine que Dati continuava utilizando, como cortesia, mesmo depois de sua saída do governo. Ao sair de uma entrevista a um canal televisivo, a ex-ministra foi avisada pelos seus próprios seguranças e motoristas que as mordomias lhes haviam sido retiradas, por ordens superiores.
Ex-mulher forte de Sarkozy, Rachida Dati foi demitida depois que seus projetos de reforma da Justiça empacaram - e caiu em desgraça definitiva desde que ela começou a criticar as estratégias do partido do governo para as eleições regionais (que de fato se revelaram um fiasco). O corte abrupto da limusine seria, segundo o semanário, a evidência de que a fofoca estaria oficialmente sendo tributada à ex-ministra - "Sarko quer que Rachida morra", resumia a edição de 31 de março.
Ao longo da semana, a matéria sobre a limusine não parou de repercutir, levando um dos secretários de Sarkozy a admitir uma "declaração de guerra" presidencial contra as origens da fofoca. Além de evocar a bobagem do complô de interesses financeiros, Pierre Charon ainda assumiu que o Élysée estaria na origem do processo judicial aberto pelo Journal du Dimanche contra dois de seus jornalistas que repercutiram o tal boato quando ele ganhou força pela imprensa do mundo.
O episódio mostrou como, pautado por charges e notas curtas sobre os bastidores do poder, Le Canard Enchaîné se tornou a pauta dos jornalistas políticos franceses. Financiado exclusivamente pela venda aos leitores, sem nenhuma propaganda, o jornal conquistou a confiança de um leitorado curioso sobre o jogo político - e sobre tudo o que está em jogo a partir dele.
Com habilidade, seus textos e notas tecem as relações entre os interesses do poder - e com inteligência, constrói as armadilhas em que os poderoso se emaranham todinhos. Resultado: vamos lá para mais uma semana em que ministros, primeira-dama e quem sabe até o presidente passarão a dar declarações e mais declarações sobre o nada - colocando mais uma vez em evidência suas fragilidades e guerras de ego.

Carolina Nogueira é jornalista e mora há dois anos em Paris, de onde mantém o blog Le Croissant (www.le-croissant.blogspot.com)

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