19 de abr. de 2010


O gosto da terra



Você sabe onde comprar lingüiça calabresa em Barcelona? Eu não tenho a mínima idéia. Não sou lá muito fã de embutidos, e numa cidade onde tropeço em botifarras (a lingüiça catalã) a pergunta jamais me ocorreria não fosse pelo email recebido de um leitor. Ele mora num pueblo aqui perto e pede ajuda em sua busca.
Não tive resposta para o leitor, mas entendo perfeitamente a sua angústia. Por mais que a condição de estrangeiro nos leve a experimentar novos sabores, aprender novos costumes, descobrir novos pontos de vista e revelar novas facetas de nós mesmos, há momentos em que nada – nada mesmo! – pode dar conta da saudade da terra.
Nesses momentos é como se a mente trabalhasse contra nós. Perdemos a razão. Ficamos obcecados pelo quiabo que não há, pela couve que não está no dicionário daqui, pela banana-prata e pelo queijo Minas, ainda que eles não fizessem parte do nosso cardápio aí no Brasil.
Conheço gente que nunca tomou uma caipirinha na vida – até se mudar para outro país. Aí, meu amigo, toca descobrir onde vende cachaça, ou encomendar a um amigo, e aprender a melhor técnica para espremer limão com açúcar.
É claro que a performance vira um acontecimento social, mas isso é o que menos importa. Todo o ritual de preparação, seja da caipirinha, da feijoada, da farofa ou do pão-de-queijo, é uma viagem de redescoberta de suas raízes, desde a procura pelos ingredientes até o momento de compartilhar o quitute com os locais.
No capítulo sabores do Brasil, minha idéia fixa chama-se pão de queijo. Sempre gostei de um PDQ, é verdade, mas nunca me preocupei muito em fazê-lo. Até chegar em Barcelona.
Mais que depressa, localizei fornecedores de polvilho – que são raros – e comecei a pesquisa pelo queijo ideal. Testei receitas diversas com queijos mais diversos ainda. Passei semanas desayunando PDQ e distribuí pacotinhos para dar vazão à produção. E na semana passada tive a chance de fazer minha performance.
Foi durante uma aula de Pastelería. Aprendíamos a fazer croissants. O professor, francês, perguntou como se fazia o tal pan de queso. Nem esperou pela resposta: pediu que eu levasse na próxima aula – o PDQ e a receita.
Desafio aceito! Com a sorte de ter polvilho e queijo recém-chegados de Minas Gerais, na mala da mamãe! Levei as bolinhas congeladas e fiquei acompanhando pela janelinha do forno da escola até elas explodirem e ficarem coradas. O cheiro espalhou-se pela cozinha.
A esta altura, já tínhamos assado e provado os croissants franceses feitos na aula passada e preparávamos ensaimadas (um quitute espanhol de massa folhada com banha de porco) para assar na próxima. Paramos tudo para a grande apresentação do PDQ brasileiro.
Fiquei nervosíssima, é claro! Mais ainda quando tive que ditar e explicar em detalhes a receita, em castelhano capenga e diante de um legítimo chef pâtissier.
E sabem o que foi mais engraçado? Cada um dos meus colegas emendou a receita com uma pitada de sabor da sua terra. “Hum, podemos rechear com umas anchovas em azeite”, dizia uma. “E que tal se fizermos umas tostadas e comermos com uma pasta de tomate e alho?”, perguntava outro. Um terceiro, mais que depressa, acrescentou botifarra. O chef decretou: “Vou provar com queijo emmental”.
Na hora achei um desaforo, mas depois entendi. Buscar o conhecido no universo de novidades que o mundo nos apresenta está na essência do estrangeiro. E o que, para mim, define o estrangeiro não é a língua ou a certidão de nascimento, é a diferença entre ser e estar.
O estrangeiro desconhece e é desconhecido, estranha e é estranhado, seja forasteiro ou nativo. Mas por mais que seus sentidos se abram para o novo – e sem isso não há estrangeiro - cada encontro com o outro é um encontro consigo mesmo e com suas raízes. Por isso é enriquecedor. Por isso é transformador.
Por essas e outras, na próxima vez que eu sair em busca de polvilho, procurarei uma resposta para o leitor que quer encontrar calabresa.
Enquanto isso, aviso aos interessados que descobri uma banca de produtos latinos na Boquería que vende – acredite se quiser – quiabo! A couve da feijoada eu ainda não encontrei, mas me contaram que na Galícia tem. Pena que é um pouco longe.

 

Anamaria Rossi é jornalista e está passando uma temporada em Barcelona, onde pretende converter-se em cozinheira. Compartilha suas descobertas no blog Yo que sé? Uma aprendiz em Barcelona

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