20 de abr. de 2010


Não preciso aproximar-me com dois passos



Não preciso aproximar-me com dois passos vacilantes 
tenho ainda tempo de vos enviar um vislumbre 
do fogo do meu rio 
onde os animais se desalteram 
onde as estrelas da noite ainda cintilam 
e os frémitos dos pássaros agitam as cinzas e as pedras
Este rio tem o suor do meu sangue 
mas também a luz frágil das minhas feridas 
que desce os declives verdes 
e ascende pelo espaço 
entrando na nebulosa do vento 
e indefinidamente 
como a respiração do mundo 
dissemina nos bairros o seu fogo vivo
Esse vislumbre vem de um país ferido 
desconhecido 
vem do homem que vos escreve 
porque não tem qualquer mensagem para vos dar
O meu vislumbre 
não é o sinal com um sentido 
é um poema 
que ninguém pode soletrar 
como um abecedário 
podem lê-lo claramente 
à luz da sua claridade indefinível 
As vossas portas hão-de ficar inteiras 
mas este vislumbre será para vós inesquecível

António Víctor Ramos Rosa (Faro, Portugal, 17 de outubro de 1924) - Além de poeta é ensaista. Estreou na poesia em 1958 participando da coletânea O Grito Claro, e desde então, não parou mais. Considerado um dos grandes escritores portugueses, recebeu diversos prêmios nacionais e estrangeiros ao longo de sua vida.

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