A dor: desafio pessoal, clínico e social
geraldinho vieira
Nada menos que 50 milhões de dias de trabalho são perdidos todo ano nos Estados Unidos por causa da dor. No mundo, a dor afeta pelo menos 30% dos indivíduos durante algum momento da sua vida como causa principal de sofrimento e incapacitação para o trabalho. A dor crônica prejudica a funcionalidade, pode levar à depressão e ao suicídio.
No Brasil, não temos estatísticas nacionais, mas não é difícil imaginar que é igualmente um problemaço. Pode ser que você se espante ao saber que um estudo sobre epidemiologia da dor relatou uma prevalência de 41% de pessoas com dores crônicas na cidade de Salvador. Quem diria, logo na Bahia! Sim, esta prevalência é uma das maiores do mundo.
Como lidar e/ou como livrar-se da dor é um desafio para quem a sente, para as famílias, para os profissionais de saúde e também para as políticas públicas. Sobretudo quando cresce a longevidade - quer dizer, quanto mais a população envelhece, mais se lida com a dor como tema público.
Mas o problema não está apenas na velhice.
Na Bahia, por exemplo, o mencionado estudo revelou que o problema tem um forte cunho social. Segundo o Dr. Abrahão Fontes Baptista, PDH em Fisioterapia e professor/pesquisador do Departamento de Biomorfologia da UFBA, a dor afeta “mães que não conseguem dormir com medo que a policia ou traficantes invadam suas casas para matar seus filhos; pessoas que não podem freqüentar os centros de saúde, pois estes estão em áreas controladas por gangues de bandidos; e, outras que não possuem dinheiro para sair de casa ou para comer”.
- “E há muitas outras condições que não são tratadas com nada do que aprendemos na faculdade, nos cursos de saúde. O desafio parece bastante grande, mas vamos em frente”, persiste Abrahão - cuja equipe está implementando um programa de educação em dor para profissionais que trabalham em Unidades Básicas de Saúde e Programas de Saúde da Família em Salvador.
- “Nossa intenção é fazer chegar à população conhecimentos básicos para se prevenir os quadros de dor crônica, para fazer com que a busca por tratamento seja mais precisa e afinal, para dar à população alguma atenção, pois muitas vezes é a única coisa que necessitamos como seres humanos”.
O efeito econômico e o desafio da medicina
O cálculo dos 50 milhões de dias perdidos por ano é da APS - American Pain Society (www.ampainsoc.org), entidade fundada em 1978 e que hoje reúne nos Estados Unidos mais de 3 mil membros entre médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e pesquisadores.
Calcula-se que sejam gastos por ano, ainda nos EUA, cerca de 150 bilhões de dólares, incluindo despesas médicas, diminuição da produtividade e de arrecadação.
No Brasil, profissionais de saúde encaram o desafio reunidos pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (www.dor.org.br / dor@dor.org.br). Com sede em São Paulo e seções regionais em todas as capitais, a SBED foi fundada em 1984 e é presidida pelo neurologista Carlos Maurício de C. Costa. Publica o Jornal DOR (trimestral) e tem um igualmente excelente website com infinita gama de artigos e pesquisas além de espaço para consulta.
A SBED tem mais de 1600 membros, e assim como sua similar norte-americana tem objetivos que não se restringem ao intercâmbio médico, inserindo-se no campo da influência em políticas públicas. Entre eles, segundo o website: “um programa de educação continuada de dor; implantação de normas para funcionamento de centros de treinamentos e titulação dos especialistas já existentes; e, inclusão do tema no currículo mínimo de graduação na área da Saúde (medicina, enfermagem, odontologia, fisioterapia, psicologia, farmácia)”.
Ambas as entidades, a brasileira e a norte-americana, são filiadas à IASP - International Association for the Study of Pain. Merecem apoio... e visitar seus sites pode trazer boas pistas para quem anda convivendo com dores.
Conhecendo a vida, o corpo e a mente
Considerando a duração da sua manifestação, a dor é normalmente classificada em três tipos: aguda, crônica e recorrente.
O fisioterapeuta baiano Abrahão Fontes Baptista explica um dos grandes desafios: “Imagine todo este processo acontecendo em pessoas que possuem uma compreensão muito pequena sobre si e sobre a vida. E ter uma compreensão muito pequena sobre si e sobre a vida não necessariamente está ligado à escolaridade. Podemos encontrar grandes intelectuais que não possuem nenhuma relação com seu corpo ou suas emoções. Neste contexto, educar é um dos principais desafios dos profissionais de saúde.”
Segundo Abrahão, profissionais de saúde não foram treinados para educar, foram treinados para fazer procedimentos. “Mas sem educar os pacientes, teremos uma falta de aderência que é crucial para que o tratamento dê certo. Não há comunicação adequada entre as pessoas e o tratamento falha. É neste contexto que entra a educação em saúde”.
Em todos os sites que mencionei, há interessante material sobre a “dor física” e obviamente também sobre a “dor emocional, psicológica”. Há dicas para procedimentos domésticos e há bons debates sobre políticas públicas assim como alguns textos rigorosamente técnicos.
Mas há também espaços para abordagens não estritamente médicas.
A American Pain Society também publica seu The Journal of Pain (O Jornal da Dor), onde encontrei interessante artigo que afirma que “a meditação pode ajudar a aumentar a habilidade para reagir à dor”. A afirmação baseia-se em pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte (EUA).
Feita com estudantes voluntários durante três dias de prática de meditação mesclada a diferentes estímulos de dor, a pesquisa demonstra que igualmente nos casos de maiores e menores intensidades os praticantes de meditação relataram menos dor.
“Diminuição da ansiedade (mentes mais relaxadas) e o aumento na capacidade de foco (concentração) podem atenuar o sentimento de dor”. Mais que isso: os cientistas garantem aos iniciantes que o efeito analgésico da meditação é alcançado mesmo com poucos dias de prática.
Se você navegar em www.jpain.org e acionar a busca por “Meditation”, encontrará este e algumas dezenas de outros excelentes artigos sobre o tema, incluindo, obviamente, boas referências sobre o que a cultura hindu tem a dizer a respeito.
Claro, tais efeitos são bem conhecidos em países onde a meditação é prática tão comum quanto são para nós arroz e feijão. Ainda este mês, por exemplo, no jornal The Times of India (não especializado no tema, apenas um bom jornal indiano) escreveu Swami Kriyananda (discípulo de Yogananda e mestre em Raja Yoga):
“Paz interior é como óleo lubrificante, permite à máquina funcionar suavemente. Sem paz mental, nossas emoções e as várias demandas colocadas sobre nós se mesclam e criam estresse, levando-nos muitas vezes a falências físicas e/ou nervosas”.
Os místicos dizem ainda da existência da “dor espiritual”, aquela sentida como um vácuo existencial, cuja cura é normalmente buscada no reino da religiosidade (não necessariamente no mercado das religiões). Isso já registrava o psicanalista suíço Carl Gustav Jung.
Mas a “dor espiritual” é outra conversa, quem sabe para algum outro dia.
Geraldinho Vieira é jornalista
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