27 de abr de 2010

Crônica de 29/11/98

Folha de S.Paulo – Luís Nassif: Raphael e Diamandu – 29/11/98


LUÍS NASSIF


Raphael e Diamandu


Era noite de Natal ou Ano Novo, não me lembro. Tinha voltado do interior e estava em casa quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, o choro convulsivo de um homem. Levou algum tempo para identificar a voz de Pelão, amigo, produtor musical, que tinha acabado de chegar do Rio de Janeiro.
Dois dias antes recebera telefonema desesperado do violonista Raphael Rabello e foi passar a noite de festas com o amigo. No apartamento, apenas os dois e o violão que Raphael pegava no colo e alisava, como se alisa a um filho. “Agora que eu sei de tudo sobre ele, que aprendi tudo, me acontece essa.” “Essa o quê?”, perguntou Pelão, já tomado pela intuição da grande tragédia. “Estou com Aids.”
A sensação que Pelão teve, que me transmitiu, que transmiti ao Aluizio Maranhão, violonista, que transmitiu ao Dagô, pandeirista, que transmitiu ao Nelsinho, cavaquinho, que transmitiu ao Almeida, ritmista, foi de um murro na boca do estômago. Nosso grupo de choro sentiu a orfandade que, alguns anos depois, morto Raphael, os chorões do Brasil inteiro sentiram. Estávamos prestes a ficar órfãos de um quase menino, o maior violonista brasileiro da atualidade, o jovem que Tom Jobim e Radamés Gnatalli tratavam por gênio e que prometia se transformar no maior da história.
Anos antes, o táxi que transportava Raphael sofreu abalroamento. O braço ficou muito machucado, obrigando a transfusões de sangue contaminado, o mesmo veneno que matou Henfil, Betinho e tantos outros.
Passei a noite sem dormir, lembrando Raphael.
Com 14 anos, com um violão maior que ele, foi parar com seu grupo Os Carioquinhas no Bar do Alemão. Sentou, perguntou que música iríamos tocar. Nelsinho Risada, nosso cavaquinho e mestre, olhou com certo ar de molecagem paternal e lascou: “Feia”, de Jacob do Bandolim, um monumento de valsa complexa. Raphael perguntou: “Em que tom?”.
Aos primeiros acordes, Nelsinho, que trazia na carteira um recorte de jornal de 1954, com a notícia da morte de Garoto (o músico que revolucionou o violão, o bandolim e o cavaquinho brasileiros), matou a charada: “Fiquem quietos todos, que temos um gênio nos visitando”.
Olimpo do choro Só os adeptos do choro podem entender como se forma a mitologia nesse universo, o rigor com que os chorões constituem seu firmamento de deuses, arcanjos e querubins, criam sua história oral. Quase nada transita pela cultura erudita ou acadêmica, pelos jornais e grandes veículos de mídia. Tudo se transmite por pautas, partituras, instrumentos musicais, fitas com gravações históricas e histórias, histórias e histórias, circulando avidamente pela confraria. Nesse universo, havia muitos anos Raphael era absoluto.
No dia seguinte, liguei para o Pelão para pensarmos maneiras de, pelo menos, registrar seus últimos anos, o que foi possível graças à sensibilidade de Ricardo Gribel, vice-presidente do Banco Real, que patrocinou um grande show no Tom Brasil.
Esse trabalho me permitiu abrigar, por algumas noites, o Olimpo da música brasileira. Quando Raphael veio se hospedar em casa, trouxe junto consigo todos os seus predecessores, na forma de histórias que coletou junto a Baden, mestre da atual geração de violonistas, Meira, mestre de Baden, e Radamés, mestre de todos. Falava de Pixinguinha e Pernambuco, de Kaximbinho e Luiz Americano, de Rogério Guimarães, de Tom Jobim e Nazareth, com a familiaridade de quem rompeu com as camadas do tempo e juntasse todos em uma festa intemporal. E falava muito da nova constelação que se formava, com uma generosidade incomum em músicos -raça frágil e competitiva, como todos os criadores. Alertou-me para a genialidade do bandolim de Armandinho (“Bicho, perto dele até eu sou japonês”), da clarineta de Paulo Sérgio e do violão de Ulisses Rocha. E falou de uma fita que gravou com Gal Costa que acabou perdida em alguma gaveta, por zangas do coração.
Durante algum tempo, nossa casa se transformou em uma espécie de refúgio de Raphael. Mas a angústia trazida pela doença era mais forte. Nos shows, perdia-se num ritmo alucinado, de quem está correndo atrás do tempo. Certa vez, num estúdio onde gravava músicas de Dilermando Reis, me puxou de lado pedindo socorro, um asilo em um lugar qualquer do interior. Outra vez, no bar “Vou Vivendo”, me quis pai, como queria a Pelão.
O último encontro com ele foi em um restaurante paulistano, em um jantar logo após um show que fez no Sesc Pompéia com Paulo Moura. Apareceu com Ana Luiza, de banho tomado, com a fisionomia tranquila, como se tivesse redescoberto a paz. Só depois me contaram que, durante o show, precisou fazer uma pausa atrás de algo que o acalmasse.
Sua morte, algumas semanas depois, me pegou em um ponto qualquer do triângulo mineiro, mas ainda a tempo de escrever algumas linhas. Depois, a cada aniversário de sua morte, prometia a mim mesmo contar um pouco de nossa convivência, mas o bloqueio era enorme.
Tomei coragem depois que ouvi o menino gaúcho Diamandu Costa, 18, moleque como Raphael, tocar com Armandinho no show dos 190 anos do Banco do Brasil. A mesma mão gorducha, o mesmo ritmo frenético, a mesma alegria e capacidade de improvisação, a mesma molecagem com as notas, a mesma genialidade.
Aí constatei mais uma vez que Deus não é brasileiro. Mas é adepto incondicional da nossa música.

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