
O que você pensa sobre as crianças pequenas no tamanho mas enormes no pique de consumo? Você é contra, a favor ou muito pelo contrário? A pergunta parece gozação, mas não é. Os adultos responsáveis pela meninada conseguem escolher as três opções e o mais incrível é que, conforme o caso e o momento, todas estão certas. Isso mostra o quanto a coisa é complexa. Até antropólogos, sociólogos, marquetólogos, psicólogos e palpitólogos quando debatem o tema ficam parecendo presidentes latinoamericanos em reuniões bolivarianas onde falam pelos cotovelos e não concluem nada. Vai daí, pra fazermos uma reflexão produtiva, nada melhor do que, ao invés de teorias, é encarar de frente os fatos.
Criançada com duplo poder de compra.
A premissa básica e realista é esta: nenhuma outra geração infantil aprendeu a conviver com o dinheiro como as crianças dos últimos anos. Se isso rolou por intuição, mimetismo ou simples absorção de mensagens publicitárias é uma discussão ainda sem conclusão. Por isso, vamos ao que mostram os fatos concretos: a criançada de hoje tem duplo poder de compra - indireto (manipulando emocionalmente avós, padrinhos, tios e, principalmente, pais divorciados), e direto (elas próprias fisicamente nas lojas torrando suas mesadas em brinquedos ou hamburgers). Ambos comportamentos refletem uma clara conscientização em suas cabecinhas: elas sabem que aquele pedacinho colorido de papel chamado “dinheiro” tem o poder mágico de permitir a conquista de qualquer objetozinho do desejo. Como lidar com isso?
”Kidzania”: incrível ainda ser inédito nos shoppings daqui.
Sem mergulhar em divagações, penso que o mais lógico e prático seria simplesmente procurar formas pedagógicas pra ajustar as crianças ao mundo do consumo. Que, sejamos realistas, não vai desaparecer por mais que os vorazes consumidores de camisetas do Che Guevara façam discursos com ranço dos anos 60 dizendo-se contrários a ela. Na minha opinião, o fundamental é evitar que as crianças cresçam acreditando na fantasia de que o dinheiro é algo que aparece e se multiplica no bolso dos adultos sem que nada se faça pra obtê-lo. Mas como transmitir isso de forma lúdica, espertamente didática e brincalhona? Sou fã de uma ideia que há anos faz sucesso em alguns shoppings de grandes cidades como Lisboa, Dubai, Santiago, etc. Nome: “Kidzania”. Como é: cria-se uma área temática dentro do shopping, cenarizada como uma mini-cidade. Nela, há lojas, postos de gasolina, hospital, etc, onde a criançada pode escolher uma profissão (e se vestir com as roupas de cada especialidade), e o que é mais sedutor: vão ganhar dinheiro pelo “trabalho”, na moeda da cidade-país Kidzania. E, depois, com a graninha no bolso, podem ir às compras na própria cidadezinha. Ou poupar. E, detalhe: as lojas, lanchonetes, bancos, são mini-reproduções de empresas reais que, obviamente, pagam ao shopping por estarem na Kidzania mas ganhando um ótimo retorno pois estão estabelecendo uma interface com as novas gerações e semeando de futuros clientes a longo prazo. Assim, todos ganham com o Kidzania: os patrocinadores que pagam, o shopping que recebe, os pais que ficam tranquilos enquanto detonam seus cartões de crédito e os filhotes que se divertem de maneira criativa enquanto aprendem a grande lição do Kidzania: antes de comprar têm que ganhar. Juro que não entendo porque os shoppings brasileiros, com marketing moderno e administradores inteligentes, ainda acham que a grande sacada pra criançada é oferecer piscina de bolinhas.
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