44 anos depois
Na terça-feira da semana passada, acordei cedo para ir ao Rio de Janeiro. Minha cidade natal. Tinha uma reunião no Jardim Botânico. Sabendo das chuvas do dia anterior, fui me informar. Aeroporto fechado e ruas alagadas me fizeram ficar em Brasília.Acompanhando o noticiário, soube que era a pior chuva em 44 anos. Ávido de notícias, acompanhei tudo o que foi publicado. Fique espiando as câmeras da prefeitura do Rio tal qual um Big Brother da vida real. A desgraça ao vivo.
Adiante, lendo Bruno Medina, em seu blog, ele dizia que se tivesse 9, 10 anos, as últimas 24 horas no Rio de Janeiro “teriam representado uma aventura e tanto”.
Logo me coloquei na pele do menino que fui nos anos 60. Morando em Copacabana, na Rua Barão de Ipanema, assisti ao maior temporal em décadas. Desabamentos, ruas alagadas, pedaços de asfalto e árvores tombadas.
Fui, com minha mãe, para o alto da Rua Santa Clara. Ela queria ajudar. Lá, a finada Rádio Continental cobria ao vivo o resgate de vítimas que moravam no morro no final da rua. Alguns cadáveres, os primeiro que vi na minha vida, foram colocados na banca de jornais da esquina. No caminho, enormes blocos de asfalto e buracos pela rua. Uma chuva sem fim. Foi uma aventura. Uma triste aventura.
Preocupada com a situação, minha mãe resolveu ir para São Paulo. Fomos em um ônibus da Cometa. A viagem durou mais de 12 horas. Passamos pelo local onde um ônibus do Expresso Brasileiro tinha sido levado pela enchente. Jazia de rodas para o ar na beira de um rio. Outra aventura. Choveu em todo o trajeto.
De Brasília, onde também chove muito e quando chove forte, falta luz e as ruas também ficam alagadas, a população daqui tem pequenas mostras da trágica situação vivida no Rio. Porém, a irresponsabilidade é a mesma.
Infelizmente, ano após anos, as enchentes vão e voltam. Bueiros entupidos, construções em lugares inadequados, sistema de alertas inexistentes e muito descaso contribuem para a repetição de problemas.
Imaginei se nevasse no Brasil. Existiriam caminhões com sal para derreter a neve? As ruas seriam limpas regularmente? Os sistemas de aquecimento funcionariam adequadamente? A cada inverno, quantos não morreriam por conta de nossa crônica inaptidão para prestar serviços públicos minimamente adequados? Quantas cidades ficariam isoladas por conta das nevascas?
A ineficiência na gestão das cidades brasileiras é dramática, doentia e trágica. Não apenas no Rio, Brasília e São Paulo. Em Brasília, muitas obras rodoviárias são feitas. Mas, os pontos de alagamento no Plano Piloto continuam os mesmos há anos. Construir é bom. Cuidar é chato. Cuidar bem é quase impossível.
No Rio e em muitas capitais, a ocupação do solo é indiscriminada. Politicamente, não há coragem de se enfrentar a questão. Nem mesmo impedir as evidentes situações de risco existente em muitas favelas. A política da demagogia exige um preço alto em vidas.
Mais de 12 mil famílias viveriam em zonas de risco nas comunidades do Rio. Somente agora, depois de uma tragédia, alardeia-se a retirada de famílias à força dos locais de perigo. Será? Esperamos que as soluções não sejam paliativas.
A evolução da política no Brasil está muito aquém da evolução da sociedade e do potencial econômico. O encontro do arcaico com o moderno se dá justamente na oferta de serviços públicos à população. O trato da questão urbana é mais uma prova cabal de que ainda estamos na pré-história.
A questão urbana está mal posta em todos os sentidos no país: trânsito, saneamento, lixo, fornecimento de água, defesa civil, entre outros pontos. São temas periféricos no cardápio político nacional. Só ganham às manchetes quando a tragédia acontece. Infelizmente, ainda demora para mudar.
Murillo de Aragão é cientista político
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