30 de mar de 2010


O tiro no pé do Citibank argentino *



Os portenhos são apaixonados por teatro. A primeira sala, o Teatro de La Rancheria, foi aberta em 1783.
Hoje são 416 espaços administrados pelo governo federal, governo da cidade e iniciativa privada, mesclados com palcos mais independentes.
Apenas para comparar, Paris tem 165 teatros, Roma 123 e Madri 68.
Pois bem, o Citibank argentino deveria ter levado em conta essa tradição antes de implementar uma ação de marketing que já entrou para a lista das mais mal sucedidas do ano.
Recentemente, a companhia se associou á produtora T4F, dona do teatro Ópera, um dos mais antigos da cidade, e conseguiu a concessão dessa sala por três anos. Para quem conhece Buenos Aires, o Ópera fica no coração da Corrientes, em frente ao Teatro Gran Rex.
Até aí tudo bem. O problema é que o banco simplesmente resolveu trocar o nome do teatro, que se chama Ópera desde 1871, por Citi. Mexeu em um vespeiro.
A empresa alega que há cerca de cinco ou seis anos a tendência mundial é que grandes marcas avancem sobre teatros e estádios que já possuem trajetória e nomes consagrados. Foi o que aconteceu com o El Calderón, de Madri, que atualmente se chama Teatro Hägen Daazs, e o Kodak, de Hollywood.
O que os executivos não contavam era com a reação negativa dos portenhos, para quem a preservação da historia e do passado é um tema instalado na agenda. Agora, também com o apoio poderoso das chamadas redes sociais da internet.
O teatro estreou com novo nome dia 26 de marco, quinta-feira passada. Ontem de manha, segunda, o grupo “Para que le devuelvan el nombre al Teatro Ópera”, no Facebook, já reunia 3.750 membros.
Entre eles, historiadores e arquitetos reconhecidos na cidade, que prometem não dar descanso ao Citi até que o nome Ópera volte a brilhar nos letreiros luminosos.
O Ópera foi construído em 1871 para ser palco de obras líricas. Durante seus anos de esplendor, chegou a receber Enrique Caruso e Tita Ruffo.
No início do século passado, com a inauguração do Teatro Colón e do Coliseu, entrou em decadência e foi demolido.
Na década de 1930, o espaço foi adquirido por Clemente Lococo, que construiu um novo teatro no mesmo lugar do antigo, com o mesmo nome.
Desde então, desfilaram pelo edifício figuras como Josephine Baker, Edith Piaf, Marlene Dietrich, Ella Fitzgerald, Louis Amstrong e Piazzolla. Dançaram pelos palcos do Ópera integrantes dos balés Etoiles de Paris e do Teatro Bolshoi, de Moscou.
Além disso, o prédio é considerado uma jóia Art Deco, com capacidade para 2,5 mil pessoas.
É verdade que o Citibank fez investimentos pesados em obras de restauração do teatro, lideradas pelo arquiteto Alberto Negrín, que remodelou o Folies Bergère, em Paris, e o Teatro da Rainha, em Amsterdam. E ninguém discorda que o banco fature com isso.
O que a população defende é que o fato de investir no teatro não dá direito ao Citi de jogar no lixo o nome e a história do Ópera. Fariam o mesmo com o Colón ou o Municipal do Rio de Janeiro?
A cidade está cheia de exemplos bem sucedidos de associação entre nomes tradicionais e atuais, que se potenciam mutuamente. Um deles é a Livraria Ateneo Grand Splendid, comprada pelo grupo Yenny que, sabiamente, a restaurou e a transformou na segunda mais linda do mundo. Eles podiam ter trocado o nome do espaço, mas não o fizeram.
Por isso achei graça quando vi a peca que escolheram para a estréia. “La Bella y la Bestia”. Nada mais apropriado.

Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo (giseleteixeira.wordpress.com), com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha.

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