23 de mar de 2010

alex periscinoto






GORDINHA É A MÃE.



Anúncio deste mês de março
com as poderosas líderes de mercado
de refrigerantes nos Estados Unidos
mostrando nova postura em apoio contra
a insalubre obesidade infantil.

De cara vou avisando: o título aí de cima não é xingação. Minha frase refere-se inocentemente a uma verdade genética: filha de gorda, gordinha é. E filho de pançudo, pançudinho será. Esse fatalismo, porém, parece estar com os dias contados, pois há indícios de que a obesidade infantil começa a ser encarada como um problema de saúde. Ainda há muita resistência de vovós, titias, babás, madrinhas que imaginam estarmos na Renascença onde as gordurinhas a mais agregavam valor social, na base do vale-quanto-pesa. Por isso, se naquela clássica reunião familiar pra ver o sólido rebento recém-nascido repleta de comentários emocionados tipo “que rostinho forte” (bochechudo), “que bracinhos fortes” (balofos), “que perninhas fortes” (coxãozinho mole), eu dizia, se no meio desse entusiasmo emocionado aquele tio mais bem informado disser imprudentemente “pô, esse bebê tá obeso”, tem que falar e sair correndo pra não sofrer barrigadas dos robustos pais.
 
Crianças brasileiras como num quadro do Botero.
 
Mudar um conceito secular como esse de que criança gordinha é forte, vai dar trabalho, mas tem que ser feito. Veja que a Organização Mundial da Saúde constatou existirem nada menos do que 155 milhões (!) de jovens com excesso de peso em todo mundo. E, no Brasil, conforme diz a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, temos mais de 7 milhões de crianças obesas. Acrescente-se nisso o informe da Sociedade Brasileira de Pediatria (“nos últimos 30 anos o índice de crianças brasileiras obesas passou de 3% pra 15%”) e tá completado o desenho da nossa infância no estilo de Botero. Partindo-se da certeza de que criança acima do peso é uma bomba-relógio que sofrerá, quando adulta, de diabetes, doenças cardíacas, problemas ósseos, hepáticos, etc, é imprescindível desarmar o quanto antes esse futuro insalubre. Pra isso é determinante que sejam sincronizados os esforços dos pais, familiares, professores. E, importantíssimo, que também entrem nessa saudável batalha, as empresas de fast food e fabricantes de alimentos e bebidas que, cá entre nós, nunca se mostraram preocupados em saber o estrago que fazem no organismo da freguesia os seus embutidos, salgadinhos, guloseimas, pães, biscoitos e refrigerantes repletos de gorduras, corantes, açúcares, conservantes, ácidos, etc.
 
A força de Bill Clinton, Michelle Obama e grandes anunciantes.
 
          Um fato novo está acontecendo agora nos Estados Unidos e provavelmente também chegará aqui: as empresas de refrigerantes entraram na guerra santa contra a obesidade infantil. Com seu imenso poder de comunicação, as marcas líderes de mercado anunciaram outro dia, em Nova York, que conseguiram reduzir em 88% o consumo de refrigerantes com alto teor calórico distribuídos nas escolas americanas. As bebidas pros estudantes são especiais, de baixa caloria. Essa nova postura faz parte de uma campanha nacional (“Aliança para uma Geração Mais Saudável") que conta com a credibilidade da Fundação Bill Clinton, Institudo do Coração dos Estados Unidos e apoio da primeira-dama Michelle Obama que lidera uma ação comunitária nacional contra a obesidade infantil. Penso que por aqui, se houver uma atitude séria de todos envolvidos, também podemos fazer a criançada mudar hábitos alimentares. Até porque, diferentemente dos norte-americanos, aqui ninguém livra a cara dos gorduchinhos. A garotada faz piadas, inventa apelidos, tira onda de tudo. Com isso, livrar-se da obesidade também significa se libertar da crueldade infantil. Uma motivação que certamente dá água na boca das sofridas fofuras.

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